““Jamaica”, “GroKo” e “KoKo”…” (Expresso, 13.12.2017)

Republished from: FRANÇA, Ana. “Jamaica”, “GroKo” e “KoKo”: procura-se modelo de governação para a Alemanha. Expresso, 13 december 2017.


 

As primeiras diligências para a formação de uma coligação de quatro partidos – apelidada de “Coligação Jamaica” por as cores dos partidos formarem as cores da bandeira daquele país – falharam em novembro, depois de os conservadores do Partido Democrático Livre (que em 2013 não tinham conseguido nem os 5% necessários para entrar no Bundestag mas que nestas eleições elegeram 80 deputados), terem abandonado a mesa de negociações com a coligação de Merkel e com os Verdes. As “divergências insanáveis” quanto aos números da imigração e às medidas de redução acentuada das emissões de Co2 propostas pelos Verdes levaram o líder do FDP, Christian Lindner, a dizer que “mais vale não governar do que governar mal”. Agora está tudo nas mãos dos sociais-democratas, e na “Groko” – termo que designa a “Grande Coligação”.

 

Entra Martin Schulz, o negociador relutante

Durante as primeiras semanas de instabilidade política, Martin Schulz, líder do SPD e ex-presidente do Parlamento Europeu, recusou-se a manter viva a hipótese de conversar com Merkel para mais uma – a terceira – coligação. Mas teve que a ressuscitar. E quarta-feira à noite estará reunido com a chanceler e com um grupo muito reduzido de representantes de ambos os partidos. É a antecâmara de umas eventuais “conversas exploratórias”.

“Ainda nem são conversas de exploração. Hoje à noite os líderes dos partidos vão encontrar-se, não serão mais de dez pessoas à volta de uma mesa, e será apenas para testar as águas. Podem até nem continuar para conversas mais sérias mas é expectável que sim”, diz ao Expresso Josefin Graef, investigadora do Departamento de Estudos Germânicos da Universidade de Birmingham.

Esta semana, o SDP atirou para o ar a ideia de que podia nem sequer entrar numa coligação formal com a CDU. Merkel quer afastar esta opção porque seria quase tão instável como governar sozinha. “Seria uma coisa próxima do que aconteceu no Reino Unido com os unionistas irlandeses e o governo de Theresa May, um acordo de que algumas medidas serão viabilizadas mas outras poderão não ser. É uma opção que Merkel só muito pressionada aceitará”, diz a investigadora. Também este modelo tem um acrónimo – KoKo de “Coligação de Cooperação”.

Já Paolo Chiocchetti, investigador do Instituto Robert Schuman de Assuntos Europeus, considera que esta coligação “irá prejudicar eleitoralmente o SDP” que já tinha tido “uma série de maus resultados” e que “deveria manter-se na oposição para ganhar a confiança da sua base”. Se não o fizer, diz o especialista ao Expresso a partir de Bruxelas, “o SDP corre o risco de ver cada vez mais votos a fugir para a esquerda, ou seja, para o Die Linke e para os Verdes e até alguns para a direita”.

 

O medo da contaminação

O SDP teme que lhe aconteça – continuando com os exemplos do que já se viu acontecer na Europa – o mesmo que aconteceu aos Liberais Democratas britânicos nas eleições que se seguiram à coligação com os conservadores de David Cameron. Passaram de 57 deputados para 8. E também os sociais-democratas alemães tiveram a sua pior prestação desde 1949.

“Os resultados foram maus e eles interpretaram-nos como um castigo por duas coligações com os conservadores de Merkel. Essa interpretação é questionada por outros, já que o SPD continua a ser a segunda força então isso não significa que as pessoas os estejam a punir porque os números ainda lhes dão a oportunidade de entrarem num governo”, explica a investigadora. Um outro problema é o futuro: o que é que uma terceira coligação fará ao SPD? “A maioria dos membros do partido já está na fase em que quer que Schulz pelo menos discuta a formação de um governo com Merkel, mas a ala mais jovem está contra o que veem como um conluio contaminador”, acrescenta.

 

Os alemães afinal querem ou não a estabilidade?

Um pulverização ideológica deste tipo nunca se viu. São sete os partidos no Bundestag: além da União Cristã Democrática (CDU), da União Social Cristã (CSU) e do Partido Social Democrata (SPD) agora existem também a Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita, com 94 deputados eleitos o Partido Democrata Livre (FDP), conservadores, que regressaram ao Parlamento com 80 deputados depois de, em 2013, não terem sequer conseguido os 5% mínimos para entrar. Os Verdes continuam a angariar simpatias, conseguindo aumentar para 67 o número de assentos parlamentares e também os esquerdistas do Die Linke que agora ocupam 69 lugares, mais 4 do que em 2013.

Será então a estabilidade um bem de que os alemães optaram por abrir mão este ano? “Não. Os alemães continuam a valorizar a estabilidade e a prova disso é o quarto mandato de Merkel, ela cometeu erros mas ainda é vista como a pessoa que lidera uma das mais potentes economias mundiais. Penso que muita gente quer uma coligação simplesmente para acabar com esta instabilidade”. Então e qual a razão para esta fragmentação?

“Ao mesmo tempo, há muita gente descontente que tem que protestar. As diferenças sociais estão a acentuar-se, a demografia está a mudar radicalmente, as pessoas têm medo do futuro, por razões completamente distintas: umas porque acham que os imigrantes vão ficar com todo dinheiro do Estado em subsídios e outros porque consideram que estamos a destruir o planeta com tanta poluição”, diz Josefin Graef.

“Os dois maiores partidos são incapazes de dar resposta às expectativas de uma população cada vez mais diversa. São os partidos preferidos das elites porque um governo centro-esquerda ou um centro-direita acaba por não modificar muito a posição confortável em que essas elites se encontram”, explica Chiocchetti. “As sociedades são hoje muito mais complexas, multiraciais e essas pessoas precisam de partidos menos abrangentes, que deem respostas mais diretas às suas necessidades”, explica.

 

A extrema-direita pode ser a principal oposição

Com uma grande coligação a Alternativa para a Alemanha tornar-se-ia o maior partido da oposição. “Emocionalmente é muito complicado. O peso simbólico de uma oposição de extrema-direita é um dos maiores problemas com esta coligação. É muito pesado”, diz Graef. Com os liberais do FDP desacreditados porque abandonaram as conversas para uma coligação de quatro partidos e os esquerdistas do Die Linke e os Verdes “a terem que lutar pelo púlpito de maior opositor da globalização”, como diz a investigadora, “não se prevê uma oposição não seria muito construtiva porque não há nada que possam fazer juntos, nenhuma frente comum a apresentar à coligação”, completa.

O que quer que aconteça, esta coligação, na opinião de Josefin Graef, será “instável” porque o SDP e a CDU “só se vão entender porque têm que se entender não porque haja um programa parecido”. Há diferenças grandes ambos: uma delas é o facto de o SDP querer autorizar a que as famílias dos refugiados que estão na Alemanha também possam viver lá; outro é a exigência de Schultz em acabar com os seguros de saúde privados, exigindo que o Estado suporte tudo”.

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